A Reprodução Humana
Por Thomaz Magalhães
Enquanto no campo da ética e das crenças impera o medo do conhecimento genético, sua aplicação prática na medicina mostra avanços extraordinários na reprodução humana. Nem mesmo a retirada total de órgãos dos sistemas reprodutores, como ovários, testículos e úteros, ou seu bombardeamento por tratamentos rádio e quimioterápicos, podem mais impedir a procriação, porque a fertilização assistida a conduz com espantosa eficiência, impensável três ou quatro anos atrás. E além de eliminar a infertilidade, estende o benefício para alívio dos efeitos colaterais dos ciclos de vida, e de outras doenças, como a menopausa, terrível quando precoce, mais a saúde na terceira idade. É o lado do sucesso. O risco fica por conta da complexidade e inte-relação das funções hormonais envolvidas,especialmente pelo controle do estrogênio, no caso das mulheres. Por isso, muito do que já é conhecido ainda não pode ser aplicado. Ainda.


NO LIMITE

Quando se olha o conhecimento genético pelo seu lado experimental, há motivos de sobra para pensar aonde se vai chegar. No combate às doenças da velhice, as publicações científicas mostram as universidades, as brasileiras no meio, falando por exemplo em células que curam. Que tem poder regenerativo, podendo reconstruir órgãos, usando tecidos do próprio corpo do paciente, prevê a GeronCorporation, uma empresa de biotecnologia norte-americana. O National Institutes of Health, também americano, estuda as células-tronco, embrionárias e capazes de se transformarem em qualquer célula do nosso corpo, originando todos os tecidos e órgãos humanos. Doenças como mal de Alzheimer e diabetes estariam sendo controladas. E essas células poderiam também se transformar em músculo cardíaco. Ficaria mais fácil fazer um coração, diz Ronald Mckay dessa instituição.
Os primeiros bebês brasileiros gerados pela técnica da maturação de espermátides, que são as células precussoras do espermatozóide, nasceram em 1999. Na mesma clínica de reprodução assistida, a do Dr. Roger Abdelmassih, em São Paulo, foi produzido pela primeira vez no mundo, no sábado de carnaval de 2000, um embrião concebido a partir da criação de um óvulo criado em laboratório. Coletaram uma célula somática da paciente e a injetaram no óvulo de uma doadora, do qual havia sido retirado o núcleo genético. O resultado foi um óvulo com as características genéticas da paciente, não da doadora. Esse novo óvulo foi então fecundado por uma injeção de espermatozóide, dando origem ao embrião. Parece ficção, mas não é.

A SEGURANÇA DAS NOVAS TÉCNICAS

As pessoas acometidas pelo câncer já podem preservar a capacidade reprodutiva, com os cuidados tomados antes da aplicação dos tratamentos quimio e radioterápicos, cuja agressividade acaba levando a quadros de infertilidade. Nos homens, 90% apresentam quadro de azoospenia, ausência de espermatozóides no ejaculado, poucas semanas após o início da terapia. Destes, um terço fica
estéril para sempre, justificando a conduta da criopreservação, que é o congelamento do sêmen.
Nas mulheres os efeitos colaterais desses tratamentos são ainda mais agressivos, com a perda das funções uterinas, até destruição total da reserva de óvulos nos ovários. A esterilidade é quase sempre definitiva, além do risco da menopausa precoce, principalmente após os trinta anos de idade. Essas pacientes já podem ser protegidas seguramente pela criopreservação terapêutica de Gametas. Trata-se do congelamento de fragmentos de ovário contendo óvulos no estágio mais primitivo e indiferenciado, retirados do abdomem através de uma simples laparoscopia, que vem sendo realizada no Brasil pelos médicos Edson Borges e Assumpto Iaconelli, do Fertility Centro de Reprodução Assistida (011-3885-9858).Descongelado, o tecido é transplantado novamente, ou submetido a uma técnica laboratorial de amadurecimento em vitro.


FILHOS DE HOMENS INFÉRTEIS


A técnica da Microdissecção Cirúrgica do Testículo permite que um homem absolutamente estéril venha gerar filhos.Desenvolvido na Cornell University de Nova Iorque, é aplicada no Brasil pelo médico Edson Borges, por uma incisão dividindo o testículo ao meio, retirando amostras para a busca de espermatozóides, com a ajuda de um microscópio. Muito mais eficaz que a biópsia, cuja probabilidade de encontrar espermatozóides fica entre 30 e 50%, quando com a microdissecção vão para 70 a 90%, com menos de 10% de volume de material colhido. Mais eficaz e menos traumático.



PESO VERSUS FERTILIDADE


A chance de engravidar diminui se a mulher engorda, chegando a cair 60%a entre as que estão em tratamento. O problema é bem menor para as que estão abaixo do peso. O British Medical Journal publicou estudo com mulheres classificadas pelo IMC- Índice de Massa Corporal, que considera saudáveis as taxas entre 25 e 30%. As que estavam com taxas superiores a 35, muito gordas, apresentaram 30% de chances de engravidar com a tratamento de fertilidade, contra 48% de sucesso entre as de peso normal. As magras, com IMC abaixo dos 25, mostraram pouco menos sucesso que as normais, com 45%. O IMC é obtido pela equação altura ao quadrado dividida pelo peso em quilos.


PARA OS HOMENS E REPOSIÇÃO AINDA É POLÊMICA


Como o estrogênio para as mulheres, que diminuiu com a menopausa, a testosterona dos homens também começa a rarear com a idade, por volta dos 60 anos. Nelas a reposição hormonal apresenta resultados extremamente confiáveis, através do uso de diversas técnicas. Não é o caso dos homens, com muito menos técnicas de tratamento disponíveis, ainda tendo na administração oral do homônio a principal delas. Produz efeitos colaterais indesejados, como danos ao fígado e até câncer na próstata. Embora antevendo para breve uma qualidade de vida muito melhor para os homens que se previnirem, os médicos ingleses da Universidade de Brigthon alertam na Oncologic, Endocrine & Metabolic Drugs que as terapias de reposição hormonal para eles só serão seguras quando as formas de aplicação avançarem, no mínimo para o nível dessas terapias na mulheres.




É MUITO CARO AINDA.


Mas a esperança é que isso mude, porque o que é caro mesmo são a pesquisa e o desenvolvimento das técnicas, nascidas nas universidades e custeadas também pelas corporações e governos. A aplicação médica dessas novas técnicas aponta para procedimentos que chegam a ser simples, alguns deles ambulatoriais. Mas o fato é que hoje em dia, tratamentos de reprodução assistida no Brasil custam cinco, dez, quinze mil reais ou muito mais. Vai mudar, porque as clínicas brasileiras estão se capacitando. Somente uma delas, a Clínica Roger Abdelmassih ( 011 3887 1555), onde nasceram em terço dos 6000 bebês brasileiros pela fertilização assistida, reuniu em um congresso mais de dois mil médicos de todo país. Esperança para 10 milhões de casais brasileiros atingidos pela infertilidade, e para muitos outros que lutam contra outras moléstias.


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